Um domingo

domingo

Lembro-me dos meus domingos quando era criança, não era um dia como outro qualquer, era diferente. Alguma coisa o tornava especial.

Não acordava muito tarde, tinha um compromisso que não podia faltar, era a missa das crianças que começava pontualmente às 9 horas e 30 minutos, na Igreja Matriz de Senhora Sant’Ana. Eu era um dos coroinhas que ajudava na missa e depois nos batizados e casamentos. Foram muitos casamentos e batizados que ajudei, muitos!

Voltava pra casa perto do meio dia e quando lá chegava ia direto almoçar, sem peso na consciência e um grande vazio na barriga. Minha mãe gostava de mudar as refeições nesse dia. Macarronada, lasanha, almôndegas, bolo de ameixa com Coca-Cola, entre outras especiarias que Dona Régia sempre fazia aos domingos.

A programação da TV não era das melhores, ou era Domingo Legal com o Gugu e sua banheira mágica de onde sempre surgiam sabonetes sobrenaturais ou era o Domingão do Faustão com a sua magnífica ponte do Rio Que Cai e seus impagáveis vídeos cacetadas!

Às vezes quando minha mãe recebia suas amigas em casa para conversar, rir, ouvir músicas, jogar baralho, tomar uma cervejinha e comer petiscos, eu ficava sozinho assistindo o que eu queria, não era nada demais, já que não tínhamos antena parabólica ainda…

Impagável era brincar de pega-pega, esconde-esconde e sete cacos na rua, geralmente voltava todo ralado e sangrando muito de alguma queda. Naquele tempo a minha rua era do tamanho do mundo e Santana do Ipanema era o meu universo onde tudo acontecia e tudo era bom.

Quando a noite chegava, já estava em casa tomado banho e todo cheio de Mertiolate nas pernas, joelhos, braços e cotovelos. Era hora de assistir o Fantástico e depois o início do Topa Tudo por Dinheiro, que minha mãe nunca deixava assistir. Algumas poucas vezes eu assisti o início e em raríssimos (quase nunca (duas ou três vezes)) momentos assisti o programa completo.

Mãnhinha me convidava pra dormir sempre às 21 horas, pois no outro dia tinha aula e eu não poderia me atrasar. Compromisso é compromisso!

Acho que sei por que o domingo era um dia especial, ele era o único dia que passava com minha mãe por inteiro. Nos dias normais ela trabalhava o dia todo, eu acordava muito cedo pra ir para escola e ela ainda estava dormindo, quando acordava com o barulho que fazia enquanto me arrumava, ela me dizia do seu quarto: Bom dia, meu filho! Já tomou café da manhã? Não vá com fome! A tarde estava sempre ocupado com alguma coisa, era trabalho de escola, aula de reforço, educação física, jogando vídeo game, missa à noite e casa dos amigos, chegando em casa era banho, um pouco de TV e cama, e minha mãe ainda estava na rua trabalhando vendendo as joias do seu mostruário ou roupas. Quando ela chegava em casa eu já estava no 16º sono!

Domingo é sem dúvida um dia especial!

@Marques_JM

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1 comentário

Arquivado em Textos

Uma resposta para “Um domingo

  1. Domingo, pra mim, tem gosto de pijama, almoço às 15h e Silvio Santos, haha… Mas, eu compartilho dessas memórias maternais mais intensas nesse dia que hj me parece tão preguiçoso. Adorei o texto (:

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