O dia em que conheci meu pai…

Como poucos sabem, cresci sem conviver com meu pai, das poucas lembranças que tenho dele, uma relatei aqui no blog, na postagem Pai!, eu sempre dizia que na primeira oportunidade que eu tivesse ia a Recife e iria conhecer esse outro lado da minha vida que nunca tive acesso.

A imagem de pessoa que tinha do meu pai foi passada por minha mãe, pois toda vez que fazia alguma estripulia ela dizia: Só pode ser filho do seu pai mesmo! Os mesmos “pantins” que ele tinha você tem!

Por um sopro do destino, precisei ir a Recife fazer um trabalho, que me ocuparia somente a parte da manhã, ficando livre o restante do dia, já que meu voo de volta, seria somente no dia seguinte.

Depois de algumas ligações para minha mãe, consegui algumas informações que precisava para começar a minha busca. A única informação que minha mãe tinha era o nome do antigo prédio onde meu pai trabalhava e morava, sendo que a última vez que ela esteve no local foi há 20 anos.

– Procure o edifício Continental, meu filho! Ele fica no centro de Recife.

Caramba, vai ser quase impossível encontrar alguma coisa! Recife é gigantesca, mas eu vou encontrar! Saí do hotel, procurei um taxi com o motorista mais velho que tivesse na frota. Senhor, preciso ir ao edifício Continental, lá no Centro. Saí cortando Recife, de Boa Viagem até o Centro, fui admirando aquela cidade com grandes prédios e história encantadora. A cada pessoa que via passando imagina que poderia ser algum parente…

Chegando no Centro, desci próximo ao edifício e indo em direção tive a leve sensação de já ter colocado pequenos pés naquele chão… Entrei no edifício e fui logo perguntando a um funcionário quanto tempo ele trabalhava ali.

– Trabalho aqui há 12 anos, moço!

– O senhor, já ouviu falar em José Marques, um morador antigo daqui, que era oftalmologista, alto e da barrigona?!

– Não, moço! Num é do meu tempo não. Mas o Raimundo, que é o funcionário mais velho daqui deve conhecer. É só falar com ele no elevador.

Quando o elevador abriu, não contei história e abordei logo a pessoa que lá estava:

– Boa tarde, Raimundo!

Contei sobre a minha busca e perguntei se ele conhecia o meu pai, ele olhou pra mim sem dar muita atenção e disse que não lembrava de ninguém com esse nome.

Não sabia muito o que fazer, ficava pra lá e pra cá dentro do prédio. Perguntei para um senhor que tem uma loja, ele disse que não sabia quem era, mas que o Raimundo poderia conhecer.

Dei uma volta ao redor do prédio e liguei para Dona Régia, minha mãe, falei o que tinha acontecido. Ela ficou de tentar lembrar mais alguma informação que me ajudasse, mas nada que poderia mudar o rumo dessa história. Antes de me despedir ela me indagou o porque de não ter levado uma foto dele. Esqueci mãe!

Já sei, eu tenho uma foto dele no meu celular! Quando lembrei esse detalhe importante, fui novamente ao elevador perturbar o seu Raimundo. Mostrando a foto ele imediatamente mudou o semblante e disse que gostava muito do Dr. Marques, que ele era uma pessoa muito querida por todos. Ele brincava com todo mundo!

– Agora, meu filho, tem muitos anos que ele não mora mais aqui. Muitos anos mesmo.

– O senhor não tem nenhuma luz que possa me ajudar a encontrar alguma coisa?!

Ele pediu para que eu entrasse no elevador que ia me levar pra uma sala que talvez lá alguém pudesse me ajudar com alguma informação. No final do corredor você chama o Beckman, que é contador.

Chegando lá, bati na porta e esperei um tempinho, quando ela se abriu, Beckman se apresentou e fui logo mostrando a foto e dizendo que buscava informações sobre o senhor da foto, que era meu pai. Ele quando viu a foto ficou surpreso e não acreditava naquilo que via.

– Tem como você me passar teu telefone. Daqui a pouco eu ligo pra você, dizendo alguma coisa.

Desci e fiquei esperando a ligação, pensando o quanto seria maldade ele não me dizer nada, pois tinha visto em seus olhos que ele conhecia meu pai. Ele estava mais surpreso que eu!

– Marques, tem como você voltar aqui?!

 

Subi imediatamente. Chegando lá, Beckman me apresentou ao seu irmão Ferdnand e sua cunhada Dagmar. Descobri então, que estava sentado com meus ex-cunhados e com grandes amigos do meu pai. Aqui descobri que meu pai já não estava vivo há 16 anos e que tinha cinco irmãs. Inclusive que uma já me aguardava ansiosa. Sua irmã Valéria quer falar com você. Enquanto esperava minha carona pra conhecer minhas irmãs, admirava Recife do alto do 11º andar do edifício continental, de um lado a Assembleia Legislativa de Pernambuco, do outro lado do rio Capibaribe estava o Palácio do Governo e o Palácio da Justiça.

Seu cunhado chegou! Entrei no carro com uma ansiedade muito grande, Eduardo, meu cunhado, estava com sua filha e de lá até a casa da minha irmã fomos conversando e trocando informações sobre as peripécias do meu pai.

Quando chegamos, já em Olinda, vi minha irmã Valéria na área da casa com sua mãe Vandelúcia, num abraço apertado e verdadeiro, tive a certeza que estava em casa…

Conversamos muito sobre as minhas outras quatro irmãs. Em Recife você tem duas irmãs e as outras três estão em Jundiaí, São Paulo! Vandelúcia, uma pessoa de coração grande, me contou muita coisa sobre o meu pai, inclusive a sua maneira particular de viver a vida. Meu filho, seu pai vivia o presente! Não queria saber do futuro, só do presente! Eu precisava ouvir tudo aquilo, pois ali eu conheceria um lado meu que não tinha explicação. Nos conhecemos, conhecendo nossos pais. Nossas origens.

A conversa foi longa, falei com uma irmã de São Paulo, a Gina, e conheci a Carmem, que também mora em Olinda. Com olhares demorados tentávamos nos encontrar um no olhar do outro. Terminamos a noite curtindo um bom forró e uma boa comida. Terminamos o encontro com a sensação que precisamos conversar mais, pois 25 anos de história, não se esgotam em algumas horas. Queria ter ficado um pouco mais, ter ouvido mais minhas irmãs e suas histórias de vida, conversado com meus sobrinhos, inclusive o mais velho de 20 anos, tem o meu nome, só que com Neto no final. Queria ter mergulhado mais nos olhos das minhas irmãs…

Ouvi as histórias que sempre tive curiosidade em ouvir, soube de algumas das aventuras do meu pai durante a sua juventude, ouvi as histórias de suas aventuras pelo sertão baiano e alagoano. Acabei me identificando em muitas de suas histórias.

Só queria ter tido a oportunidade de lhe conhecer pessoalmente, mas devido a diabetes que lhe ceifou a vida, não tive como… Queria tanto, ter ouvido essas histórias de sua boca, com seu tom de voz e com suas gargalhadas… Queria tanto um abraço… Só um abraço.

“Pai
Eu cresci e não houve outro jeito
Quero só recostar no teu peito”

“Pai
Você foi meu herói, meu bandido”

Fui pra Recife com 3 irmãs e dois sobrinhos e voltei com oito irmãs e 10 sobrinhos. Voltei com a família renovada e bem maior. Voltei feliz. Vim para Maceió com a certeza que irei voltar e curtir as minhas irmãs e meus sobrinhos, tanto em Recife como em São Paulo.

Eu disse que ia encontrar a minha família… Encontrei!

†José Marques de Vasconcelos nasceu em 27 de dezembro de 1936 e faleceu no dia 29 de janeiro de 1996.

Anúncios

17 Comentários

Arquivado em Geral, Textos

17 Respostas para “O dia em que conheci meu pai…

  1. Lidiane

    Que lindo, tudo isso é muito forte!

  2. Darlan Leite

    Você escreve cada vez melhor! Que história meu amigo! Quanta sensibilidade! E que família grande einh!?!? Sucesso!

  3. Fábio Palmeira

    Caro amigo, José Marques, hoje você não tem seu pai, nem tão pouco teve o prazer de conhece-lo melhor e conviver. Mas tantas outras pessoas tem seus pais ao lado e não valorizam, suas palavras de “desabafo” nos faz repensar atitudes e comportamento familiar. Você emocionou porque escreveu com o coração. Essa etapa da sua vida cabe em um belíssimo livro, você sabe conduzir o leitor a vivenciar o fato, apenas bons escritores tem esse dom…
    Sua história é linda e sua habilidade em descreve-la é coisa de profissional.
    Parabéns.

  4. Wescley Vilela

    Que história, amigo. Emocionante!!!

  5. eva moraes

    Me emocionei aqui pois sou órfã de pai vivo e sempre sofri discriminação por parte da burguesia de um colégio ao qual eu fui contemplada e por n ter pai tinha que ficar fora de todas as brincadeiras mas sempre encontrava uma saída e nessas saídas sempre tinha amigos que eu levo até hj no coração.

  6. Pingback: 2012 um ano que jamais esquecerei! | Blog do Marques

  7. Ana Paula Mendes

    Marques de lindo, me emocionei com a sua história, e com a sua capacidade de olhar além das dificuldades e tristezas, saber olhar acima de tudo com amor e alegria, não de deixando vitimizar! Parabéns amigo, te admirando ainda mais…

    • Rosana

      Oi meu querido, sou sua prima, Rosana. Conheço muito bem suas outras irmãs, inclusive ja morei com elas quando moravam em Paulo Afonso. É lindo esse seu interesse pelo seu pai conhecido como tio zé rs.
      Estive junto com suas irmãs na época do falecimento dele. Louvo a Deus por sua vida primo, são poucos que tem esse desejo que vc teve, de saber do seu pai, mesmo sendo como foi a situação na época.
      Sou irmã da Regina e do Ronny que são seus amigo no facebook .Bjs no coração

  8. Ainda estou emocionada com a história. Parabéns por ter encontrado sua família!

  9. João

    ôI, MARQUES!
    uma das gratificantes lembranças de minhas idas e vindas a Santana é você, homem!
    Agora me fazendo lembrar minha FILHA. Com a EDUCAÇÃO que tive jamais deixaria a filhota em férias com a minha MÃE, mas pra pagar minha LÍNGUA as duas – avó e neta – se dão bem desde todo o SEMPRE e uma me ajuda a compreender a outra.
    – Caráca, véi! …
    E mais, a minha FILHA chama o namorado da mãe dela de irmão mais velho. Pense …
    E vem minha MÃE dizendo que preciso de alguém pra cuidar de mim no ‘fim dos meus dias’ … rsRs … cuidando do PRESENTE, poderia eu sumir assim?!… Kkkkk
    Fraterno abraço, AMIGO!/ João

  10. Lorena

    Maaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaarques que coisa linda amigo! *-*
    Lorena 😉

  11. Cecinha

    Emocionante.

  12. Carlos Beckman

    Amor, Determinação e Coragem explicitam bem a história que acabo de ler. Personalidade expressiva e carismática adornam a pessoa com quem me deparei. Corrigindo apenas: … ” No final do corredor você chama o Beckman, que é contador” … O profissional em contabilidade é o meu estimado irmão Ferdinand.

    Mas, retomando o texto do Marques, digo mesmo, que o seu talento em narrar esse episódio evidencia com clareza sua facilidade em escrever cabendo um sonoro PARABÉNS! Pelo conjunto da obra, pela pessoa, pela família… Penso que mesmo com seus poucos anos de vida, me ainda seja possível pelo seus bons exemplos e também afinidades em áreas comuns de interesse, possibilitar trocar experiências e certamente muito mais aprender que ensinar.

    Até breve!

  13. Kayo Albuquerque

    ganhar algumas írmas e parentes.

  14. Kayo Albuquerque

    Tinha lido seu relato dos dias dos pais, gostei muito desse também.Triste por vc não o ter conhecido, mas feliz por ganh

  15. Meu irmão, desde que li seu texto do Dia dos Pais que torcia por algo assim para você. Que história linda! Emocionante, vou dormir muito bem, feliz pela felicidade que você transmite. Como diria Chaplin na abertura de “O Garoto”, “uma história com um sorriso e, talvez, uma lágrima”. Porém, sem talvez nesse caso. Que ano interminável nas experiências de vida que tem tido! Quantos anos em um! Como se tira férias de algo assim? Grande abraço!

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s