Amor de adolescente

Quem nunca teve um amor correspondido na adolescência, levanta a mão! Eu levanto, fazendo, assim, parte de um grupo de bilhares de adolescentes no mundo que choraram pensando em suas respectivas paixões, enquanto ouviam It Must Have Been Love, da Roxette, naquele bom e velho programa de rádio Love Time, ou em outros com nome semelhante.

O ano era 1996. O Brasil estava começando a conhecer o governo FHC, que entrava no seu segundo ano, quando fiz a 3ª série, no Instituto Sagrada Família. Tudo indicava que aquele ano seria tranquilo e sem muitas emoções, até porque o que seriam grandes emoções para alguém que tem apenas nove anos? Estava enganado.

– Marques, cuidado para não se atrasar! Não é bom perder o primeiro dia de aula.

– Estou quase pronto, mãe.

– É bom mesmo!

Minha mãe tinha acabado de preparar a minha lancheira, quando saí do quarto e peguei a minha mochila. Estava todo animado. Poxa, ia começar a terceira série, estava ficando velho…

O caminho da escola era divertido, pois até lá eu tinha que passar por três confortáveis ladeiras e chegar, além de todo suado, cansado para a aula. Mas nada que tirasse a alegria de reencontrar com os amigos e colegas de turma.

– E aê, Juádley, vai sentar com quem?

– Vou sentar com Thiago de França e você?

– Ainda não sei. Vou sentar nessa banca e esperar.

As bancas escolares do Sagrada Família tinham um espaço para duas pessoas, o que na época nos ajudava no aprendizado sobre o limite que cada indivíduo tem, ensinando-nos a sempre respeitar o espaço do colega do lado. Naquele ano, dividi a banca com o Hevert, que mais tarde, no ginásio, teria a fama de “agourador”, porque colocava ou procurava algum defeito em tudo que via.

As coisas estavam dentro do padrão, até que entra na sala uma menina de pele clara e cabelo preto, aparentando ser um pouco mais velha que eu, mas nada que fosse tão perceptível. Um rosto que me chamou atenção.

Estava inquieto e queria saber quem era aquela menina que acabara de entrar, mas poucos sabiam informar. Até que na hora do recreio eu descobri.

– Ei, quem é aquela novata?

– A Raphaela. Ela é filha de uma professa aqui do Sagrada.

-Hum. Ela é legal?

– Ela? É valente! Vá tirar onda com ela não.

De fato, ela tinha um gênio muito forte, o que hoje, nós adultos, chamamos de personalidade. Pena que eu viria a descobrir da pior maneira possível.

Eu estava apaixonado. Não sabia como e muito menos porquê, só sabia do sentimento que do meu ser tomava conta. Sentia um friozinho na barriga toda vez que encontrava com ela fora da escola. Tudo que ela fazia eu achava a coisa mais linda do mundo, até os gritos que ela dava quando falava com alguém soavam como música no último volume.

Em casa, eu chorava copiosamente, não por ter levado um não, mas simplesmente por gostar dela, uma coisa que hoje acho sem sentido, mas tudo bem. Naquele tempo, tinha na rádio Santana FM, em Santana do Ipanema, um programa muito famoso entre os apaixonados sertanejos. O programa era o Love Times. Sim, eu mandei algumas milhares de cartinhas para o programa.

– Estamos de volta com o programa, Love Times. A emoção está no ar! Vamos ler agora mais uma cartinha de amor, que vai de um alguém todo apaixonado, na rua Professor Enéas, para seu grande amor, que está lá no bairro do Monumento.

Tentei ao máximo não revelar a minha paixão secreta por ela, o que consegui fazer por alguns anos, porém acabei compartilhando esse meu sentimento com um amigo que era primo dela. Júnior Lamarck não conseguiu guardar o meu singelo segredo e me fez o agradável favor de contar para algumas pessoas e para toda a torcida do Flamengo, inclusive para a própria Raphaela.

Um dia qualquer, na hora do recreio, eu tinha ficado na sala conversando com Juádley e Thiago de França, quando começou uma conversa no fundo da sala, acompanhada de grandes e boas risadas. Eu estava curioso, porém não dei muita atenção, até que escuto de longe algo sobre o meu segredo.

– E aê, Rapha, tem chances? – Perguntou alguém apontando pra mim com os olhos.

– O Marques? De jeito nenhum! – Disse Raphaela, me presenteando com o primeiro não da minha vida.

Quando ouvi aquilo, tentei fingir que não tinha acontecido nada, saí da sala e fui para o pátio dar uma volta e tentar encontrar alguma desculpa para aquilo tudo. Nada encontrei.

Depois da aula, fui direto para casa com a cabeça no mundo da lua, pensando no fora que tinha levado sem ter pedido. Chegando em casa, liguei o rádio e rezei para que o dia todo só tocasse as músicas mais melosas do planeta. Queria chorar… E chorei!

Depois disso, continuei apaixonado por ela, pelo menos até sair do Sagrada Família e ir estudar no Cenecista Santana, quando conheci outras meninas e vivi outras paixões. Todas não correspondidas, diga-se de passagem.

José Marques, Maceió 12 de dezembro de 2011.

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11 Comentários

Arquivado em Textos

11 Respostas para “Amor de adolescente

  1. Eric Ranukete

    Se hoje sou o que sou, é pelo fato de lutar e ter lutado muito pelo o que sempre acreditei.

  2. João

    Marques,
    estudei no G E Pe Fco Correia nos anos 1950 e no G Santana nos anos 1960, no pátio em Santana meninos e meninas. Depois estudei num colégio de padres com salas e pátios apenas para meninos em Recife até 1967. Com autorização do Papa à época – João XXIII, creio – as meninas chegaram em 1968 ainda tontas, vinham de colégio de freiras. Quem sabia o que fazer uns com as outras e umas com os outros? … um efeito interessante: cessaram os palavrões à hora do recreio. Abç, João

  3. com certeza qm tem história pra contar é vc viuu marqeus …. são as melhores XD saudades deste tempooo

  4. hahahaha é o mal do sagrada, eu já sofri ali também =p e eu também mandei cartinha pra rádio (que bregaaaaas, dios mio) e a minha vergonha pública foi bem maior, pq o meu amorzinho jogou todas as cartinhas que eu mandei pra ele no pátio da escola, em pleno fervilhar do recreio kkkkkkk eu sou uma maria do bairro sofredora e ninguém sabe hahahaha olhae: http://quatrops.wordpress.com/2010/12/24/capitulo-3-amor-de-primo-nunca-morre-sera/

  5. Quem nunca teve um amor não correspondido? É, sofri disso também

  6. Thiago Pacífico

    “Quem nunca teve um amor correspondido na adolescência, levanta a mão!” _o/

    Se preocupa com as meninas não. Bom mesmo era sentar junto com Marques nas bancas duplas: era diversão na certa. Já prestar atenção na aula ….

  7. samara malta

    kkkkkkkkkk marques adoro ler os seus texto mto bom, to imaginando a cara da rafaela lendo rsrsrs!

  8. CanAlmeida

    Unxi… tão fofo!! Essas meninas são umas bobas…

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